Com declarações e atuando no mercado, Banco Central (BC) promoveu uma pausa no movimento de alta no preço da moeda americana, que levou a cotação do dólar à vista para cima de R$ 2,10 durante o pregão desta quarta-feira.
No fim do pregão, o dólar comercial fechou com queda de 1,97%, a R$ 2,039 na venda. Essa queda percentual é a segunda maior do ano. Na máxima do dia, no entanto, a moeda foi a R$ 2,106 (+1,25%).
A Bovespa também caiu, fechando em queda de 0,76%, aos 54.619 pontos.
Em maio, o Ibovespa acumula queda de 11,65%, que já seria o pior desempenho mensal desde outubro de 2008, ápice da crise mundial, quando o Ibovespa perdeu 24,8%.
"O mercado estava apostando todas as fichas hoje na reunião dos líderes europeus, mas a percepção de que eles não terão medidas concretas para apreentar trouxe ainda mais preocupação", afirmou Pedro Amaro, analista na PAX Corretora.
Também contribuiu para o aumento da aversão ao risco a notícia de que as autoridades da União Europeia avisaram os membros do bloco para prepararem planos de contingência caso a Grécia deixe o euro, segundo reportagem da Reuters. O governo grego negou a informação.
Em Wall Street, o Dow Jones encerrou com variação negativa de 0,05%. Mais cedo, o principal índice dos mercados europeus fechou em baixa de 2,18%.
"Além do cenário externo muito ruim, a situação brasileira também contribui para que a bolsa aqui em geral caia muito mais que nos Estados Unidos", disse Amaro. "Tivemos uma temporada de balanços abaixo do esperado, além das perspectivas ruins para o crescimento da economia no primeiro e no segundo trimestres."
Petrobras pesou no Ibovespa, com a ação preferencial recuando 2,44%, a R$ 19,23. A queda do Ibovespa só não foi maior graças a ação da OGX, que avançou 2,95%, a R$ 11,51, e a preferencial da Vale, que subiu 1,02%, a R$ 36,80.
Banco do Brasil recuou 4,2%, a R$ 20,51, sendo a segunda principal contribuição para a queda do Ibovespa. Já as maiores baixas do índice foram a ordinária da Oi, com queda de 5,46%, a R$ 9,69, e Pão de Açúcar, que recuou 5,22%, a R$ 78,00.
DÓLAR
Na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), o dólar para junho perdia 2,50%, a R$ 2,043, depois de fazer máxima a R$ 2,111 (+0,74%). Também na BM&F, o dólar pronto subiu 0,58%, a R$ 2,0725, com giro de US$ 5,5 milhões, um dos menores do ano.
A autoridade monetária fez oferta de swap cambial (operação que equivale à venda de dólar no mercado futuro) e durante apresentação do Boletim Regional do BC, em Curitiba, o diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton, afirmou que o excesso de volatilidade no câmbio é preocupante, mas que a instituição não tem uma meta para o câmbio.
Essa foi a primeira sinalização do BC sobre a recente disparada do dólar. Os swaps e o discurso da autoridade tiraram os compradores da zona de conforto. Ou seja, ao menos hoje, a compra de dólar ficou mais arriscada em função desse aceno de maior disposição do BC em atuar no mercado.
No entanto, disse um operador, além de falar, o BC tem de seguir atuando, caso contrário, o mercado vai para cima dele novamente.
"O discurso é bom, mas o mercado, agora, vai esperar a atuação. De fato, a melhor comunicação do BC é pela mesa de operação dele. O mercado não entende outra coisa que não seja prejuízo", diz. Para esse especialista, boa parcela da alta pode ser credita ao mercado "testando" a paciência do BC e do governo com a alta do dólar.
Para o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidnei Nehme, apesar do recuo de preço após as atuações do BC, não dá para chegar à conclusão de que o mercado está "satisfeito".
FLUXO DE DÓLARES
Olhando os dados sobre o fluxo cambial, Nehme chama atenção para a saída financeira de US$ 5,196 bilhões em maio até o dia 18. Esse é o pior resultado desde dezembro de 2008 para essa conta e já acende sinal vermelho. Como a conta comercial está firme, com entrada de US$ 3,686 bilhões, o resultado líquido do mês é um fluxo negativo de US$ 1,511 bilhão.
Segundo Nehme, esse aumento das exportações pode ser visto como uma "antecipação no tempo". Em função da taxa favorável há um maior número de fechamento de contratos de câmbio e mesmo ingressos relacionados ao comércio externo. No entanto, esse ingresso pode não se mostrar muito sustentável. Com isso, essa conta negativa do fluxo ficaria ainda mais negativa.
"Esses fluxos comerciais mascaram a saída financeira. Não se pode falar em fuga de dólares do país, mas esse número precisa ser acompanhado", diz Nehme. Segundo o especialista, essa saída financeira pode ser composta por saída de investimentos e pela não rolagem de captações externas, conforme as condições de mercado deixaram de ser favoráveis.
"Meu receio é que se o fluxo continuar negativo ele vai acabar consumido a posição comprada dos bancos, e esse problema que está localizado no mercado futuro de dólar chega ao mercado à vista. Essa saída de US$ 5 bilhões é um aviso", diz Nehme.
Com o fluxo negativo de US$ 1,511 bilhão em maio até o dia 18 é possível estimar que a posição comprada dos bancos no mercado à vista tenha caído de US$ 5,99 bilhões no fim de abril, para cerca de US$ 4,5 bilhões. Ou seja, ainda há dólares disponíveis no mercado à vista.
Para Nehme, se o quadro da zona do euro se agravar ainda mais, a obtenção de dólares ficará mais difícil, pois os investidores preferem fazer caixa a realizar novos investimentos.
Ampliando a avaliação, Nehme aponta que a avaliação sobre o Brasil mudou. A visão otimista que reinava está sendo substituída por uma julgamento mais crítico com relação ao país. Na visão do especialista, mesmo que a crise abra boas oportunidades de investimento, esses recursos esbarram na avaliação de que o país é "caro" em diversos sentidos, como tributação e falta de infraestrutura.
No câmbio externo, o euro derrete em meio às conversas sobre a possível saída da Grécia da zona do euro. A moeda comum caiu 0,69%, a US$ 1,259, menor preço desde julho de 2010. Já o Dollar Index, que mede o desempenho da divisa americana ante uma cesta de moedas, subiu 0,43%, a 82,02 pontos, também maior leitura desde meados de 2010.
Fonte: Folha Online
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